Pesquisadores identificam novos compostos promissores para o tratamento da malária resistente

Ainda que seja uma doença prevenível e tratável, a malária continua sendo um problema de saúde pública mundial. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 282 milhões de pessoas tiveram malária em 2024 e mais de 600 mil óbitos foram registrados, com o continente africano contendo o maior número de casos. A doença é causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pela picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles. Entre as espécies do parasita, a Plasmodium falciparum é a mais preocupante por estar associada à forma mais grave da doença e pelo aumento da resistência do parasita aos atuais tratamentos disponíveis. Diante disso, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP) avaliaram novos compostos com potencial para atuar contra formas resistentes de P. falciparum.

Os resultados foram publicados recentemente na revista científica ACS Omega por uma equipe liderada pela Profa. Dra. Arlene Gonçalves Corrêa, professora titular do Departamento de Química (DQ) da UFSCar e coordenadora do Centro de Excelência para Pesquisa em Química Sustentável (CERSusChem), e pelo Prof. Dr. Rafael Victorio Carvalho Guido, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. No estudo, o grupo de cientistas sintetizaram e avaliaram a atividade antiplasmódica de vários peptidomiméticos baseados em indol, um composto orgânico aromático muito explorado no desenvolvimento de novos medicamentos. Os peptidomiméticos, por sua vez, são moléculas sintéticas que imitam peptídeos naturais, projetadas para ter maior estabilidade e potencial de alcançar alvos biológicos.

Entre os compostos investigados, dois tiveram mais destaque na inibição de diferentes formas resistentes do parasita, incluindo linhagens com resistência a múltiplos medicamentos. Entre os resultados, os compostos apontaram também baixa toxicidade em células humanas e elevada seletividade contra o parasita. Além disso, os experimentos indicaram uma ação mais mais lenta em relação a tratamentos atuais, porém foram observados efeitos aditivos quando combinados ao artesunato, um derivado da artemisinina, substância obtida da planta Artemisia annua. Com isso, os achados se tornam ainda mais relevantes porque as terapias combinadas à base de artemisinina constituem a principal estratégia terapêutica - considerada o padrão-ouro - contra a malária em diversas regiões do mundo. Assim, ao combinar um fármaco de ação rápida, como o artesunato, com compostos de ação sustentada, pode-se ter maior eficácia do tratamento, eliminando parasitas que sobrevivem às etapas iniciais.

Para entender quais características estruturais dos compostos provocavam os resultados observados, os pesquisadores fizeram análises conhecidas como relação estrutura-atividade. Com essa abordagem, pequenas modificações em “peças” das moléculas foram feitas para ver como afetam a ação contra P. falciparum, como a substituição ou adição de grupos químicos. Essa busca por moléculas bioativas integra um dos focos de pesquisa do CERSusChem, sediado no DQ-UFSCar, e do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), com sede no IFSC-USP, ambos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Agora, a equipe trabalha na síntese de novos peptidomiméticos com maior potência e solubilidade, que serão novamente avaliados. A publicação pode ser lida na íntegra ao clicar aqui, sendo também possível ler a notícia publicada pela FAPESP em: https://www.ufscar.br/noticia?codigo=17032&id=novos-compostos-tem-resultados-promissores-para-tratamento-da-malaria.