Combatendo o BPA na era dos plásticos: pesquisadores desenvolvem novo material e usam técnica sustentável para degradação do poluente em água
Bisfenóis são um tipo de resina usada na produção de uma variedade de produtos plásticos. Essas substâncias podem interferir no sistema hormonal do corpo e causar efeitos adversos à saúde de homens e mulheres. Em particular, um desregulador endócrino com comprovada atividade estrogênica é o bisfenol A (BPA). No organismo, o BPA imita hormônios naturais femininos e age como se fossem eles, ligando aos seus receptores e bloqueando a regulação hormonal. O resultado desse desequilíbrio é uma condição favorável para o desenvolvimento de diversas alterações metabólicas, como resistência à insulina, obesidade e distúrbios reprodutivos.
Plásticos de policarbonato e resinas epóxi contém BPA e são materiais utilizados em garrafas, embalagens de alimentos, revestimento interno de latas e equipamentos médicos e dentários. Antes da proibição em vários países, até mesmo algumas mamadeiras eram produzidas com BPA. Apesar dos riscos, ainda há muitos recipientes com BPA na composição porque há vantagens industriais e comerciais, como sua leveza, resistência e capacidade de evitar ferrugem e alteração por agentes externos. Contudo, o BPA é sensível à variação de temperatura, o que faz com que a principal fonte de exposição ao composto seja por meio da ingestão de alimentos contaminados.
Além de danoso à saúde humana, o BPA é um poluente da água e afeta a vida aquática e ecossistemas devido à sua toxicidade e dificuldade de decomposição. Com tantos impactos e preocupações, vários métodos têm sido estudados para tentar quebrar esses poluentes e purificar águas contaminadas. Entre as técnicas mais sustentáveis, destaca-se a fotocatálise, a qual usa a energia solar para obter energia química e degradar o BPA de águas residuais. Porém, ainda não é uma abordagem ideal com total eficiência porque depende do desempenho do fotocatalisador empregado, substância que acelera as reações químicas.
Dedicados à pesquisa e desenvolvimento de novos fotocatalisadores, uma equipe de pesquisadores da Universidade do Quebec, no Canadá, conseguiu criar um material com alta eficiência na remoção do BPA e tratamento de água. Em artigo publicado no periódico Catalysis Today na ScienceDirect, o grupo demonstra que ao incorporar nanoestruturas de carbono (CNs) no semicondutor nitreto de carbono grafítico (g-C₃N₄) e submeter o material a um tratamento térmico em altas temperaturas, tem-se um material inovador — o (HT)CNs@g-C₃N₄ — com características otimizadas.
Além disso, as CNs e g-C₃N₄ foram obtidos a partir de glicose e ureia, que são reagentes renováveis, com um processo sustentável de síntese hidrotérmica em autoclave. Dessa forma, a pesquisa se destaca pelo compromisso com soluções ambientalmente responsáveis em todas as suas etapas. Ao ser testado, o material conseguiu remover 99% do BPA em soluções de 50 mg/L. Os autores discutem que a alta eficiência pode ser explicada pela maior área de superfície do material, o que possibilita mais interações com o poluente no meio, além de aspectos químicos e de maior ordem na estrutura do material que tornam mais eficiente o transporte de energia.
Diante dos resultados, certamente o catalisador obtido é um forte candidato para investigar a fotodegradação do BPA em escalas maiores e em diferentes condições ambientais, visto que há mais poluentes e possíveis moléculas-alvo. Como a pesquisa foca exclusivamente na remoção de BPA, novos estudos podem fortalecer as conclusões e validar a aplicabilidade prática deste novo fotocatalisador. O artigo completo, "Facile green synthesis of highly efficient carbon nanospheres@g-C₃N₄ catalysts for photodegradation of Bisphenol A", pode ser lido em: https://doi.org/10.1016/j.cattod.2025.115201.