Cascas e sementes de frutas da Amazônia podem ser aproveitadas na produção de bioprodutos sustentáveis

Em um estudo recente publicado no Journal of the Brazilian Chemical Society, pesquisadores brasileiros investigaram a potencialidade da biomassa residual de espécies frutíferas nativas da Amazônia Legal, como casca de baru (Dipteryx alata Vog.), casca de cupuaçu (Theobroma grandiflorum) e semente de pequi (Caryocar brasiliense Camb.), na produção de bioprodutos sustentáveis. A partir da pirólise lenta da biomassa, uma técnica que decompõe materiais orgânicos a altas temperaturas na ausência de oxigênio, foram obtidos bio-óleos e biochars (um tipo de carvão), os quais se mostraram promissores como compostos verdes para biorrefinarias com potencial para diversas aplicações econômicas.

A Amazônia Legal é abundante em resíduos vegetais, mas suas propriedades tecnológicas ainda são pouco exploradas. Esse cenário, no entanto, não condiz com a crescente demanda por transição energética frente aos impactos ambientais e esgotamento dos recursos fósseis. Dessa forma, a biomassa residual tem despertado cada vez mais interesse como uma solução renovável que pode ser aproveitada para gerar energia limpa e produtos químicos sustentáveis, como biocombustíveis e plásticos biodegradáveis. Por meio de processos de conversão termoquímica, como a pirólise usada pelos pesquisadores, além de gaseificação e combustão controlada, os resíduos vegetais podem ser transformados em produtos de alto valor agregado.

No caso do bio-óleo, um líquido rico em oxigênio, seu valor calorífico (energia gerada quando queimado) é baixo, o que limita seu uso como combustível. Para contornar isso, técnicas como fracionamento, reações químicas de conversão e o uso de catalisadores são empregadas para aumentar sua eficiência energética. Já o biochar, um subproduto sólido e rico em carbono, tem propriedades físico-químicas, como alta porosidade, grande área de superfície e grupos funcionais aromáticos em sua estrutura, que facilitam a interação com outros compostos. Assim, suas aplicações podem ser diversas, incluindo seu uso na adsorção de metais contaminantes em água e no aumento da fertilidade do solo, retendo nutrientes metálicos benéficos às plantas.

No estudo, ambos os subprodutos foram analisados pelos pesquisadores de modo a identificar e quantificar seus compostos químicos, além de caracterizá-los quanto ao teor de carbono, área de superfície e estabilidade termodinâmica das biomassas. Os resultados revelaram que o biochar derivado da casca de cupuaçu apresentou o maior teor de carbono e a maior área de superfície, destacando-se como o mais promissor. A casca de baru e a semente de pequi, por outro lado, destacaram-se para a produção de bio-óleo devido ao alto teor de compostos voláteis liberados no processo de pirólise, o que as torna opções promissoras para biocombustíveis.

Dessa forma, essas biomassas residuais geradas a partir de atividades produtivas ou do consumo local, que antes seriam descartadas, podem se tornar valiosas para a promoção de uma transição energética sustentável na região. Como direções futuras, os pesquisadores propõem aprimorar as técnicas de produção de biochar e bio-óleos, além de investigar diferentes fontes de biomassa da Amazônia Legal e seu comportamento frente às condições de pirólise. O artigo completo, "Exploring the Potential of Waste Biomass from the Brazilian Legal Amazon in Bioproducts Production: a Comprehensive Analysis and Promising Perspectives", pode ser lido em: https://doi.org/10.21577/0103-5053.20240202