Esponjas de celulose com partículas de prata são produzidas por método limpo e mostram potencial biomédico

Pesquisadores brasileiros desenvolveram um material promissor para aplicações biomédicas, especialmente na engenharia de tecidos, área focada em criar estruturas capazes de regenerar ou substituir partes doentes ou danificadas do corpo humano. O estudo reuniu cientistas da Universidade de Araraquara (UNIARA), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Estadual Paulista (UNESP), que criaram uma esponja de celulose regenerada combinada com nanopartículas de prata, a partir de um método de produção limpo. O composto apresentou propriedades muito desejadas: porosidade e eficiência na absorção de líquidos, além de combater bactérias. Enquanto a prata confere ação antimicrobiana, a celulose oferece uma base biocompatível e biodegradável, com testes in vitro mostrando segurança do material para uso médico. Dessa forma, os achados abrem caminho para o desenvolvimento de curativos mais eficazes, capazes de acelerar o processo de cicatrização, sobretudo em casos de feridas infeccionadas e inflamadas.

Apesar do potencial, o uso de nanopartículas metálicas em materiais para a saúde ainda envolve alguns desafios, especialmente na forma de produção. Em muitos casos, a obtenção dessas partículas depende do uso de reagentes agressivos ao meio ambiente ou deixam resíduos tóxicos. Para contornar isso, os pesquisadores tentaram uma abordagem de síntese verde através de um método chamado de método hidrotérmico, uma técnica que utiliza apenas soluções aquosas sob alta temperatura e pressão para transformar o sal de prata, neste caso o nitrato de prata (AgNO3), em nanopartículas diretamente na estrutura da esponja de celulose. Com isso, além de dispensar o uso de substâncias nocivas, a metodologia permitiu que a própria celulose atuasse como agente redutor, que transforma os íons de prata (Ag⁺) em partículas metálicas (Ag⁰), e como agente estabilizante, impedindo que essas partículas se aglomerassem.

Com relação à celulose, diferentes concentrações de prata foram incorporadas à esponja para avaliar se o processo modificaria suas propriedades. Os testes mostraram que, com o aumento da quantidade de prata, apenas pequenas mudanças ocorriam na capacidade do material de absorver líquidos, o que ocorre pela ocupação dos poros da esponja pelas nanopartículas. Apesar disso, o composto manteve bom desempenho no controle da umidade e em sua ação contra patógenos como Staphylococcus aureus e Escherichia coli, ambas bactérias associadas a infecções de pele. Além disso, imagens obtidas por microscopia mostraram que as partículas de prata ficaram dispersas de maneira bem homogênea na estrutura da esponja, aspecto que contribui para a liberação controlada dos íons responsáveis por romper as membranas bacterianas.

Dessa forma, o conjunto de resultados reforça o potencial da esponja de celulose regenerada com nanopartículas de prata para a engenharia de tecidos como uma opção eficiente para fins biomédicos e preparação sustentável desses compósitos. Ainda assim, os autores destacam que se trata de uma etapa inicial de desenvolvimento. Como os testes foram realizados em laboratório com culturas celulares e de bactérias, ainda são necessários mais estudos sobre o desempenho do material em organismos vivos e sobre sua durabilidade a longo prazo. A pesquisa foi conduzida com apoio da FAPESP e do CNPq e os resultados completos estão publicados no Journal of the Brazilian Chemical Society (https://doi.org/10.21577/0103-5053.20250056).