Resíduos de banana ganham novo valor no tratamento sustentável de água

A transformação de rejeitos das agroindústrias em produtos com novas possibilidades de uso é uma estratégia importante para enfrentar impactos ambientais relacionados tanto à própria gestão de resíduos quanto à preservação de recursos naturais. Entre esses rejeitos, um amplamente disponível com enorme volume de descarte é a casca de banana, uma vez que o Brasil é o quarto maior produtor mundial da fruta. Diante disso, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e recentemente publicado no Journal of the Brazilian Chemical Society, identificou uma alternativa de uso para este material: o seu aproveitamento na produção sustentável de biochar (biocarvão), uma substância rica em carbono que consegue remover íons de ferro e manganês de sistemas hídricos.

A presença em excesso desses metais em águas naturais e subterrâneas é um problema comum em diversas regiões e pode comprometer a qualidade da água, causar odores e coloração indesejáveis, o que impacta tanto o consumo humano quanto o seu uso industrial. Felizmente, diferentes métodos podem ser empregados para a remoção desses contaminantes, entre eles o uso de substâncias adsorventes, materiais porosos à base de carbono capazes de reter esses íons. Para a produção desses materiais, a biomassa derivada de resíduos agrícolas pode ser utilizada como matéria-prima, uma vez que se trata de uma fonte renovável de carbono, cuja carbonização - um processo de aquecimento controlado da biomassa para concentrar carbono - resulta na formação do biochar. Na pesquisa, os autores realizaram a carbonização da biomassa por meio de processamento hidrotérmico, também chamada de pirólise úmida por ser realizada em meio aquoso, transformando os rejeitos de banana em hidrochar (hidrocarvão). 

A partir da síntese do hidrocarvão, os autores puderam avaliar quais seriam as condições ideais de produção sustentável desse material sem prejuízo da sua eficiência. Assim, foi necessário entender como diferentes aspectos, como o tempo da reação, a temperatura e o uso de ácido fosfórico ou hidróxido de sódio como agentes ativadores, podem influenciar na capacidade do hidrocarvão em atrair e reter os metais em sua superfície. Entre as amostras testadas, o hidrocarvão produzido a 150 °C  por 11 horas apenas em água (sem agentes ativadores) apresentou o melhor desempenho. Análises avançadas, como a difração de raios X e a espectroscopia no infravermelho, técnicas que revelam a estrutura e as ligações químicas do hidrocarvão, confirmaram a elevada presença de grupos funcionais oxigenados e nitrogenados, regiões da superfície do material que favorecem a interação e a adsorção de íons metálicos.

Com isso, a pesquisa apresenta uma solução acessível e sustentável para a remoção de metais pesados da água ao transformar a casca de banana em um material adsorvente para esta finalidade. Um dos principais méritos de estudos como este é evidenciar o papel fundamental da economia circular na promoção da sustentabilidade, ao demonstrar que resíduos agroindustriais, frequentemente descartados sem o devido reaproveitamento, carregam um potencial valioso de transformação em novos produtos. Para conhecer todos os detalhes do artigo e as capacidades do hidrocarvão, leia-o na íntegra em: https://dx.doi.org/10.21577/0103-5053.20250169.

Texto por Milena Rossales Castro.